O que os olhos não leem, o corpo não sente? ( Parte 1)

Teste revela que queijos minas frescal informam incorretamente a quantidade de nutrientes no rótulo. Alguns têm muito mais gorduras do que declaram, e das nove marcas que se dizem light, oito não são 

3 de abril de 2013 | 06:19

O queijo minas frescal (também chamado de queijo branco) é figura carimbada dos cardápios de dietas. Mas quem está de olho na balança e aposta nesse tipo de queijo como aliado deve ficar atento, principalmente aos ditos light, pois muitos deles não são tão inofensivos para a silhueta quanto parecem. O Idec testou em laboratório 25 amostras desse queijo (de 15 marcas diferentes) e verificou que os teores de gorduras, proteínas e sódio presentes nos produtos são diferentes daqueles declarados no rótulo. Todas as amostras informam errado a quantidade de, pelo menos, um nutriente.

As maiores variações entre o valor do rótulo e o real foram identificadas nos queijos light. O pior caso foi o do Dia Light, que tem 932% a mais de gorduras totais em relação ao que é declarado na embalagem. Isso mesmo: quase mil vezes mais! O rótulo informa que uma porção de 30 g do alimento tem apenas 0,5 g desse nutriente, mas, na verdade, contém 5,16 g. No geral, os produtos apresentam discrepância em mais de um nutriente. O queijo Santiago Light, por exemplo, informa valores muito diferentes do que realmente têm em sua composição para gorduras totais, saturadas e insaturadas, e sódio.

Vale dizer que há vários casos em que a quantidade detectada de sódio é menor e o teor de gordura insaturada (um tipo de gordura “boa”), maior do que é dito no rótulo, o que pode até ser visto como algo benéfico para a saúde. “Apesar disso, a imprecisão generalizada das informações nutricionais revela um descontrole no processo de fabricação desses produtos e de sua rotulagem”, destaca Carlos Thadeu de Oliveira, gerente técnico do Idec.

Além disso, a legislação que trata do assunto, a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) no 360/2003 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não menciona variação para menos, apenas para mais (até 20% acima do valor declarado no rótulo). Apesar de tal regra estar claramente disposta na resolução (item 3.5.1), a Anvisa se contradiz e declara, na seção de perguntas frequentes (FAQ) de seu site, que é admitida variação de “+ ou – 20%” com relação ao valor calórico e aos nutrientes declarados no rótulo, e que a RDC no 360/2003 “foi publicada com incorreção e somente prevê a variação de + 20%”. “Se a agência reconhece que o texto da RDC publicada está errado, deve aprovar uma nova norma regulamentadora para alterá-la. Uma mera FAQ não tem ‘força legal’ para desautorizar uma resolução divulgada no Diário Oficial da União”, ressalta Oliveira. Além disso, mesmo que tivesse sido considerada a tolerância para menos, todas as amostras continuariam reprovadas, pois as 25 apresentam pelo menos um nutriente com variação de mais de 20%, para mais ou para menos, em relação ao indicado no rótulo. Sendo assim, o Idec considerou o que diz a resolução e as marcas que apresentaram menos nutrientes que o declarado foram reprovadas.

Se no quesito gorduras, os queijos light são muito mais problemáticos que os integrais, quando se trata de proteínas, o descompasso é generalizado: em 19 das 25 amostras a quantidade real do nutriente é menor que a informada no rótulo. A divergência pode indicar que as proteínas (presentes no soro do leite, principalmente) são reaproveitadas para a produção e o enriquecimento de outros alimentos. “Esse processo é conhecido, muito utilizado e lícito, mas não pode implicar prejuízo e engano ao consumidor”, destaca o gerente técnico do Idec.

Para a Anvisa, apesar da quantidade limitada de queijos testados, chama a atenção a alta incidência de amostras com problemas. “Os resultados apresentados pelo Idec serão avaliados e as medidas fiscais cabíveis serão adotadas”, promete a agência, por meio de sua assessoria de imprensa. De acordo com o órgão regulador, a legislação sanitária não exige que os fabricantes apresentem laudos que atestem a composição físico-química dos alimentos, mas eles são responsáveis pela qualidade dos produtos que ofertam, bem como pelas informações veiculadas nos mesmos.

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COMO FOI FEITO O TESTE

Entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, foram analisadas em laboratório 15 marcas de queijo minas frescal tradicional, sendo que, de nove marcas, foram avaliadas as versões integral e light, e das demais apenas a versão integral, totalizando 25 amostras. Os queijos avaliados foram: Almeida, Almeida Light, Cana do Reino, Cascata, Cascata Light, Cristina, Cristina Light, Cruzília, Dia, Dia Light, Fazenda Bela Vista, Ipanema, Ipanema Light, Montesanina, Puríssimo, Puríssimo Light, Quatá, Quatá Light, Santa Clara 85%, Santa Clara SanBios, Santiago, Santiago Light, Tirolez, Tirolez Light e Vernizzi.

Nessa etapa, o teste verificou a quantidade dos principais nutrientes presentes nesse tipo de queijo: proteínas, gorduras (totais, saturadas e insaturadas) e sódio. Os valores detectados foram comparados com os declarados na tabela nutricional presente na embalagem dos produtos. Além disso, foi observado se as informações do rótulo seguem as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na próxima edição da Revista do Idec, vamos divulgar os resultados da análise microbiológica dos queijos.

Esse teste foi realizado com o apoio do Fundo de Direitos Difusos (FDD), do Ministério da Justiça.

Por: Revista IDEC Abril 2013

Fonte: IDEC em 3 de abril de 2013 06:15

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